terça-feira, 17 de junho de 2008

Passos

Os caminhos devem ser percorridos com a serenidade de quem tem a certeza que se passeia sem destino preestabelecido, com a serenidade de quem sabe que pode ser surpreendido em uma qualquer esquina do caminho.
Por vezes surpreendemos-nos com novos passos que nos acompanham. Alguns têm ritmos difíceis de acompanhar, devido à sua rapidez, outros tornam-se monótonos de mais pela sua lentidão, no entanto, existem passos que têm o nosso ritmo, com os quais sentimos prazer em caminhar.
Esses são aqueles passos que nos estimulam quando o nosso ritmo se torna lento, que nos serenam quando temos tendência para começar a correr e que nos acompanham quando o caminho se torna mais agressivo. Sorrio quando penso nessas passadas ritmadas ao meu lado, que quebram os caminhos percorridos vezes sem conta e me fazem percorrer caminhos onde me conheço, onde a paisagem não está viciada, onde me aventuro para algo novo e bonito, onde os passos encontram uma estrada e não atalhos meio toscos.
Mas mesmo com esses passos, por vezes, também se tropeça e se perde um pouco o ritmo. Por vezes aventuramo-nos a percorrer novos caminhos, e isso faz com que os passos, que nos acompanham, alterem o seu ritmo face ao caminho. Paro, espero conseguir entender o ritmo da passada que me acompanha, tento entender onde a estrada me leva, tento entender… tentar entender onde estamos, onde vamos e como vamos pode, por vezes, fazer-nos perder a noção de que os caminhos devem ser percorridos com a serenidade de quem se passeia sem destino preestabelecido, com a serenidade de quem apenas gosta de sentir o prazer de caminhar acompanhada por esses passos que já conhecem os meus passos.

terça-feira, 3 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

sábado, 31 de maio de 2008

Fio Condutor

Por vezes sinto que perco o meu fio condutor, nessas alturas chego mesmo a duvidar se ele existe na minha existência. São diversos, diferentes e quase sempre lindos os mundos onde vivo. São diversos, diferentes e quase sempre lindos os motivos que me fazem entrar nesses mundos.
Não escondo de ninguém que sempre me considerei uma pessoa de extremos e de limites, não escondo de mim que isso por vezes se torna perturbador para o meu mundo privado. Confesso que, por vezes, me questiono porque me mantenho em alguns deles. Confesso que, por vezes, me questiono se alguns deles ainda têm, ou alguma vez tiveram, motivo para existirem dentro de mim.
Sim, cada mundo novo em que entro me faz questionar os outros por onde andei ... eu permito e até agradeço que isso aconteça, mas as permanentes diferenças no meu mundo fazem-me duvidar, mais vezes do que o que gostaria, se me conheço, se existe algo que se mantém permanente no espaço vazio entre mundos.
Essas zonas de vácuo, deixam aquela sensação de vazio, de falta de consistência. Nessas zonas de vácuo, eu sou genuinamente eu. Nessas alturas, por vezes questiono-me por onde andei, nessas alturas questiono o que poderia ser diferente se não tivesse vivido em alguns mundos, nessas alturas questiono-me se me quero efectivamente conhecer, nessas alturas questiono as verdades que tenho dentro de mim, nessas alturas questiono o que sinto, nessas alturas ...nem sempre gosto do que descubro.
Por isso ... por vezes duvido se tenho fio condutor.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Com Vocês

Custa-me acreditar que naquela casa vou passar apenas a viver memórias, custa-me acreditar que uma casa onde vivi tantas alegrias agora vou viver da recordação delas. A realidade por vezes projecta-se em nós como se fosse uma bala. Dentro de mim nada morreu, mas instalou-se esse sentimento de saudade que as recordações não podem matar. Sinto saudades dos tempos em que viajávamos juntos, em que pacientemente me ensinas-te tantas coisas que recordo diariamente. Foste tu que me instalas-te o bichinho e sim ... fica descansado eu vou ter cuidado porque a saudade não consegue matar o amor que sinto por ti ... por vocês. É mais do que saudades de pessoas, é saudade de um tempo onde aprendi tantas coisas, é saudade da vossa atenção, do vosso riso com as minhas parvoíces, do vosso olhar quando me ouviam a falar.
Com vocês, e com a saudade que sinto desse mundo, a minha alma ficou cheia da verdade que poucas pessoas nos marcam, mas essas serão importantes para sempre. Vou ter saudades para sempre da pessoa que apenas vocês conheceram, porque quando se ama como vocês me amaram ... descobre-se que não existem palavras que expressem a saudade.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fim e Inicio

Todos os anos por esta altura subo as muralhas e refugio-me dentro de mim. Este ano dentro da minha muralha encontrei o fim. Ao olhar para dentro de mim encontrei o adeus a pessoas que amei e o adeus a pessoas que ainda amo, encontrei o fim da caminhada de outras que amo, encontrei o fim de realidades da minha existência que nunca imaginei vir a perder.
"A partir de um certo ponto, não há retorno. Este é o ponto que é preciso alcançar." - Franz Kafka
O fim e o inicio misturam-se tantas vezes. Não desci o pano da minha peça, mas estou a viver uma nova peça. Levantem-se os actores de sempre, levantem-se as novas caras... pois... entre vocês existem novas caras, entre vocês existem caras que parecem de sempre, mas entre vocês... entre vocês faltam pessoas que amei e outras que amo, entre vocês falta algo que apenas alguns tinham capacidade de me oferecer ... neste cenário falta o cenário onde sempre me encontrei.
Após se conhecer a sensação do fim, não há retorno, e isso faz-nos regressar ao início. A essência do cenário que procuro neste palco está dentro de mim, a minha essência estava nesse cenário. Desta vez não me procurei, desta vez encontrei-me ... o que vocês me ofereceram já mais alguém me voltará a oferecer, o que fui para vocês já mais serei para outra pessoa.

sábado, 10 de maio de 2008

Regresso

Regresso ... estou de regresso a uma casa que conheço, a um ambiente que me é confortável ... a mim.
Perdi-me durante anos pelo mundo dos fascínios... perdi-me no mundo e descobri que o mundo é fascinante mas que tenho o meu próprio mundo.
É um regresso estranho, é como voltar de uma longa viagem, sabe sempre bem voltar a casa, mesmo que saibas que vais para sempre guardar recordações, mesmo que saibas que essa viagem te permitiu conhecer novos mundos, com realidades diferentes da tua ... mesmo sem saber se encontrei tudo o que procurava, quando iniciei esta viagem sem ideias pré-concebidas.
Quando regressas, o conforto que a tua casa te oferece é único, sentes uma paz a invadir-te, uma serenidade que apenas aqui encontras. No entanto a viagem permitiu-te descobrir que o mundo tem muitas realidades, que a tua verdade não é única, não é melhor, não é pior... é apenas a tua verdade. O regresso permite-me perceber que o meu mundo não está assim tão diferente, mas existe uma maior consciência relativamente à existência de um outro mundo.
As viagens criam um género de bichinho dentro de ti, uma vontade de descobrires sempre mais, de aprenderes sempre mais, de prolongares a tua descoberta mais um pouco, de te evadires, de seres outro eu que te é permitido ser nesse mundo, de te reinventares de ... regressei com a certeza que existe ainda um mundo enorme que não conheço, mas... esta foi uma longa viagem e o regresso está-me a saber ainda melhor.

sábado, 3 de maio de 2008

Misirlou

Dentro de mim a mistura de um passado regressado do pó da saudade inexistente ... dentro de mim as portas que se fecham e tornam a realidade presente no passado recente ... dentro de mim, quase como ritmo de batida de coração, a música incessante da banda sonora do "Pulp Fiction" - "Misirlou".
Sim ... quando do passado te chegam as respostas aos porquês que se mantiveram dentro de ti, já sem os dramatismos de quem está a viver o sentimento, mas com a simplicidade de quem já não se vai afectar com as respostas. Quando no presente sentes as portas do marasmo a fecharem-se e dentro de ti aquele ritmo incessante do Misirlou a encher-te da sensação que o tempo não para... essa sensação de movimento que não te permite prender aos pequenos nadas dos quais, recentemente, ganhas-te consciência que não te influenciaram ... é fascinante e assustador como sentes a vertigem de não parares muito tempo ... não interessa a fazer o quê mas o movimento não te permite pensar... foram anos de marasmo, foram anos de teias e pó e... corres com a frieza de quem quer vencer, de quem não se quer prender aos sentimentos que se formam, de quem sabe que se passar por estes resíduos da zona nublosa com a atenção fixa na raivinha que se está a formar no estômago, vais conseguir vencer o vício da cedência, da extenuante vontade de achar que a cedência te permite entender o inatendível ... neste vão entre portas, todos os dias a paisagem se transforma, neste vão entre portas a incessante batida do Misirlou a desprender-me das amarras do passado e a não deixar-me criar amarras por onde passo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Nothing Unusual...

"Nothing unusual nothing strange / Close to nothing at all / The same old scenario the same old rain / and there's no explosions here / Then something unusual something strange / comes from nothing at all" Damien Rice - Amie
Apenas a viagem de sempre, nos espaços de sempre, aquela viagem onde terminam os ruídos de fundo de mais um dia, aquela viagem que me devolve aos meus silêncios. Ao entrar nessa fronteira imaginária sou surpreendida pelas cores vermelhas de um pôr de sol típico de primavera / verão, a música continua a tocar mas parece entrar mais dentro de mim, os carros à minha volta parecem já não me interessarem ... sabe bem sentir-me a regressar ao silêncio quente daquele momento.
Abro as janelas, sinto um calor de final de tarde de que já tinha saudades, com o vento os cheiros característicos de um final de tarde de verão, o cheiro a rio, o cheiro a feno, os cheiros ....
Sim nada de mais, mas a calma deste final de tarde ofereceu-me um pouco de verão, um pouco de mim, um pouco do sossego das vozes, do burburinho das gentes... um pouco daquele silêncio quente que nos devolve a nós próprios.
Sigo viagem para um novo rumo, aterro na areia, bem de frente para o mar... mais cheiros que me transportam para dentro de mim, finalmente o pôr de sol, mais um dia findo, mais um dia sem nada relevante, talvez ... sim talvez me venha a lembrar deste momento em que em frente ao mar sorri com os pensamentos que dançavam dentro de mim ... sim, o silêncio dos burburinhos, o passeio por nós, o conforto de usufruir de um final de dia sereno em frente ao mar... a areia entre os dedos, o cheiro do mar e continuo a deixar que imagens e sentimentos venham e vão ao ritmo do mar. Neste final de tarde, nada de estranho, apenas o conforto do silêncio dentro de mim.

sábado, 19 de abril de 2008

Parábolas

Normalmente sinto que desenhar e escrever para mim são processos de interiorização, são os dois meios mais simples que tenho de me entender. O que fica no "papel" são reflexos exteriores de mim e do meu processo de auto-conhecimento, processos que me vão ajudando a entender as bases imutáveis do ser vivo em mutação que existe dentro de mim.
Mas, ultimamente, tenho sido surpreendida com o facto de me entender através de processos exteriores a mim, por vezes os meus reflexos surgem nas palavras de terceiros, de pessoas que, do nada, me oferecem um entendimento simples de mim que me fascina. Dentro de mim dançam alguns desses momentos, esses momentos que fizeram os desenhos que andam secretamente às voltas dentro de mi em traços toscos, porque sei que, no fundo, tenho medo de um dia os ver como são na realidade, fiquem totalmente definidos sem medos e sem angústias ... alguém ter a capacidade de me conhecer a esse ponto e, através de simples palavras, conseguir abalar os meus medos e inseguranças é... fascinantemente assustador.
A esses momentos chamei de Parábolas ... as 5 parábolas. Sim, a todas elas dei nomes, a primeira de todas foi a da "Passa", após esta surgiu a parábola do "Fascínio", a do "Proibido", a das "Energias mal orientadas" e a última, aquela que não foi dita mas oferecida em muitos momentos, a do "Chapéu Plim-Plim".
Sim, todas elas me deixaram momentaneamente pregada ao chão, momentaneamente senti-me invadida por aquele sentimento de me sentir totalmente vulnerável perante alguém, completamente desprovida de barreiras ... durante pequeníssimos lapsos de tempo palpável, e enormes momentos de tempo interior, senti-me um ser translúcido. Heis a contradição dentro de mim, que sempre me considerei um ser demasiado complexo para me auto entender... alguém me conseguir fazer sentir que, para ele naquele momento, eu sou apenas um ser simples e compreensível...
Estas Parábolas mudaram a forma como olho para as coisas imprevisíveis que me vão acontecendo, mas a cima de tudo, estas Parábolas ofereceram-me uma forma muito mais simples de olhar para mim, uma maneira muito mais simples de me entender, respeitar e me amar.